Eis a maior dúvida de quem está começando. Por que existem tantas? Uma só não bastaria? Por que algumas são tão caras?
Por Mario AmayaA peça mais importante de sua câmera é a lente.
A escolha da objetiva é de extrema importância, já que determina os resultados possíveis em termos de enquadramento, foco, nitidez e condições de exposição viáveis. A lente define a “personalidade” da câmera.
A melhor característica das câmeras compactas atuais é a possibilidade de experimentar múltiplos comprimentos focais numa única lente zoom, sendo trivial um fator de zoom de 4x ou 5x. As DSLRs oferecem algo mais: a possibilidade de trocar a objetiva a qualquer momento por outra com características muito diversas. Como a tendência de todo fotógrafo é especializar-se em algum assunto fotográfico, ninguém coleciona todas as centenas de objetivas que existem. Mesmo porque as lentes podem custar muito mais que os corpos! A construção de objetivas é um processo fantasticamente complexo, que usa materiais exóticos e ainda precisa ser feito à mão; isso explica os preços elevados. Por isso, saiba escolher bem; as suas objetivas poderão durar mais que a sua câmera.
O que comprar primeiro?
Se você acabou de comprar uma DSLR, é quase certo que ela veio em
kit (pacote promocional) com uma objetiva zoom autofoco estabilizada, que atualmente costuma ser uma
18–55mm f/3.5–5.6 (fator de zoom de 3x, na terminologia das compactas) ou, nos modelos mais caros, outra com um pouco mais de alcance. É uma objetiva de uso geral, que não vai muito para o lado grande-angular nem muito para o da telefoto; tampouco é muito clara, isto é, não permite aberturas muito grandes. Supre a maioria das necessidades de uso geral, como passeios, viagens, retratos sociais etc. Não faz tudo, mas o que faz, faz bem.
Por que falam tanto da 50mm?
Antes de surgirem as lentes autofoco, a objetiva que vinha em kit com as câmeras era a fixa (não-zoom)
50mm f/1.4 (ou sua irmã mais barata, a 50mm f/1.8). Seu comprimento focal era “normal”, isto é, produzia um ângulo de cobertura considerado natural para a visão humana.
A 50mm era, portanto, a lente fixa mais versátil possível para câmeras de filme de 35mm. Até os dias de hoje, esta é a objetiva mais barata de todas e, sabendo usar, produz resultados extraordinários, graças à elevadíssima nitidez em todas as aberturas e a possibilidade de trabalhar em aberturas grandes, o que a habilita para situações de baixíssima luz ou para produzir o famoso efeito
bokeh (fundo desfocado). Porém, nas câmeras com sensores de dimensões
APS-C e
DX– que hoje são a enorme maioria das digitais para entusiastas e profissionais –, a 50mm é menos versátil do que era nas câmeras de filme, porque o
ângulo de cobertura fica mais estreito: ela torna-se mais ou menos equivalente a uma 75mm. Para obter um ângulo de cobertura comparável ao da clássica 50mm numa câmera APS-C ou DX, você precisa usar uma
35mm. Ela também é acessível e vale o investimento.
Note que as lentes fixas obrigam o fotógrafo a se mexer mais para encontrar o enquadramento ideal, e isso proporciona um excelente exercício criativo; as zooms podem estimular a composição preguiçosa...
Teles, grande-angulares, macro...?
Outra lente útil para todo mundo é uma
telezoom, ou seja, zoom com comprimentos focais mais longos para a aproximação maior de assuntos distantes. Nesse campo há opções sem fim. Para pessoas normais, com orçamentos também normais, o usual é uma 70–200mm, 55–250mm ou similar. Atendem a muitas situações e produzem imagens lindas com pouco esforço.
Não fique achando que uma lente Canon série L ou Nikon série ED (os cobiçados modelos topo de linha) é a única coisa que o fará feliz. Após algum tempo com um produto básico, você irá verificar nas suas fotos as distâncias focais e aberturas que mais usa e então adquirir outra objetiva que se encaixe melhor nas suas preferências.
Seja como for, quando tiver duas zooms, evite que as suas escalas de comprimentos focais se sobreponham muito. Duas lentes, uma na câmera e outra na mochila, é o máximo que a maioria dos fotógrafos leva a campo.
O gráfico acima relaciona várias amplitudes de cobertura e a distância focal correspondente para os dois padrões de DSLRs mais populares e a full-frame (igual ao filme 35mm), que é a referência geral da indústria. Toda vez que um comprimento focal de lente é dado como “equivalente”, o valor da full-frame é a referência.
A relação matemática entre a distância focal da full-frame e uma que produza a mesma cobertura em outro sistema é chamada de “fator de corte”. Assim, o APS-C tem fator de corte de 1,5x; o DX, de 1,6x; os sistemas Quatro Terços, de 2x; quase todas as compactas, de 4,73x. Como fica claro pelos números, a dimensão de sensor APS-C da Canon não é idêntica à DX da Nikon, resultando em números um pouco diferentes, embora na prática eles sejam tratados como iguais.
Os Quatro Terços, assim como as câmeras compactas, usam sensores com proporção 4:3 e não 3:2. Por isso, a medida do sensor pela diagonal é uma forma de evitar distorções que aconteceriam se apenas a medida horizontal ou a vertical fosse usada.
No outro extremo da escala temos as
grande-angulares, que se prestam muito a fotos de paisagens e arquitetura, além de produzirem uma estética peculiar: enquanto uma teleobjetiva “achata” a perspectiva da cena, a grande-angular a “estica”, enfatizando as distâncias.
As
olho-de-peixe (fisheye) são um caso à parte, pois possuem cobertura muito ampla; elas projetam a cena de maneira tal que todas as linhas retas que não passam pelo centro óptico ficam curvas. Como uma olho-de-peixe pode ser extremamente cara, você pode, por uma fração do preço, obter um adaptador olho-de-peixe e rosqueá-lo na sua objetiva, como se fosse um filtro. A qualidade da imagem é fraca, mas vale o experimento.
Quanto às lentes
macro, note que algumas lentes zoom trazem “função macro”, que serve para poder focar mais de perto. Uma lente macro dedicada serve também para fazer retratos, apresentando nitidez fora do normal. Mas o preço também costuma ser fora do normal.
Original ou de terceiros?
Para muita gente, o costume é comprar objetivas da mesma marca da câmera, mas existem em cada categoria objetivas de terceiros, sendo as marcas mais populares
Sigma, Tamron e
Tokina, frequentemente com um custo bem mais baixo. As lentes de terceiros nunca são cópias diretas das lentes da marca original, portanto é bom comparar as tabelas de especificações e ler comentários de outros usuários desses produtos antes de decidir-se pela sua aquisição.
O que é compatível e o que não é?
Se você resolver, por qualquer motivo, mudar de sistema DSLR (costumeiramente de Nikon para Canon ou vice-versa), precisará vender a câmera e as lentes e comprar tudo de novo da outra marca, já que elas não são compatíveis umas com as outras, mesmo tendo as mesmas especificações. O mesmo ocorre com os sistemas de DSLRs de outras grifes: Sony, Pentax etc. Existem adaptadores de baioneta de terceiros para usar as lentes de um padrão em câmeras de outro, mas são soluções parciais que sempre deixam algo a desejar.
Além disso, há “pegadinhas” na compatibilidade entre lentes e câmeras. Toda
Canon EOS aceita lentes do seu padrão de baioneta, chamado EF. Mas as EOS que usam sensor APS-C (toda a série Rebel, mais a 7D e desde a 20D até a 50D) podem também usar uma classe de lente derivada da EF, chamada EF-S, que em geral é mais compacta e leve. Muitas delas têm o seu elemento posterior (o vidro mais interno) mais recuado para dentro da câmera que as EF. Por isso, uma lente EF-S não pode ser usada em câmeras full-frame (EOS-1Ds e EOS de filme), pois colidiria com o espelho. Na prática isso não é problema, pois quem usa uma EOS-1Ds acaba possuindo também as lentes “premium” da Canon, que são EF.
Pelo lado da
Nikon, um dos grandes atrativos da marca para quem gosta de fuçar é a possibilidade de usar numa Nikon nova centenas de modelos de lentes mais antigas, inclusive as de câmeras de filme. Existe, porém, um detalhe importante: as câmeras D40, D60, D3000 e D5000 necessitam objetivas AF-I ou AF-S (que possuem motor de foco interno) para fazer autofoco. Você pode usar nessas câmeras outras objetivas, mas terá que fazer o foco manualmente, usando a função de telêmetro eletrônico (Electronic Rangefinder) da câmera.
Os sistemas
Quatro Terços (Four Thirds) e
Micro Quatro Terços (Micro Four Thirds) da Olympus e Panasonic têm a seguinte diferença: as câmeras Quatro Terços são DSLRs completas, enquanto as Micro Quatro Terços são câmeras sem espelho, o que permite montar a objetiva muito mais perto do sensor. Objetivas Quatro Terços podem ser instaladas em câmeras Micro Quatro Terços através de um adaptador “oficial”.