Recado de quem usa o CS3: Não há nenhuma justificativa racional nem emocional para gastar R$ 129 no update do Mac OS X e US$ 800 para que o software da Adobe continue a funcionar nele. Por Mario Amaya
John Nack, gerente de produto da Adobe, e a sua empresa acordaram hoje sendo criticados veementemente por milhões de pessoas frustradas em toda a Internet. O motivo da gritaria: Nack
informou em seu blog que a Adobe está ajustando o CS4 para rodar no Snow Leopard — novo sistema operacional da Apple, que será lançado dentro de 72 horas -, mas que o CS3 simplesmente não foi testado no Snow Leopard, pois não receberá atualizações de compatibilidade.
Minha tendência é de concordar com a maioria de pessoas revoltadas. Esse público vocal acha que a Adobe poderia fazer melhor do que isso — não somente isso, deveria fazer — e está claramente pisando na bola.
A imensa maioria dos usuários da Creative Suite atualmente usam a versão CS3, não a CS4. Mas a CS4 é a versão que a Adobe insiste que todos deveriam ter. Fracassou em seu lançamento, que coincidiu com a crise financeira global. Em toda oportunidade a empresa tenta empurrar o CS4 goela abaixo dos usuários, tirando vantagem do fato de que simplesmente não existe concorrência para essa suíte de aplicativos integrada. Todos sabemos, por experiências anteriores, o que acontece quando uma empresa de tecnologia atinge uma posição de monopólio sobre um mercado. Falta de contato com os clientes, arrogância e, mais insidiosamente, descaso às suas necessidades.
Os usuários do CS3 recusam-se a migrar por dois motivos elementares: o update não traz novidades absolutamente essenciais e o preço do upgrade é, sem meias palavras, extorsivo. São US$ 800 em média (preços exatos
aqui. Absolutamente inviável para a legião crescente de profissionais autônomos de design gráfico, que é o meu caso e muito provavelmente também o de você que está lendo.
Nunca foi tão claro e eloquente um convite à pirataria de software, nem mesmo em relação à Microsoft ou Corel — duas companhias que, por mais que o neguem, beneficiaram-se imensamente da "divulgação" e da base de usuários estabelecida pela pirataria em tempos passados.
O pessoal que usa programas Adobe na plataforma Mac vive uma decepção à parte. O Photoshop CS4 tem suporte a 64 bits na versão Windows, mas não na versão Mac. Aliás, o programa ainda nem foi portado para o framework Cocoa, que é o oficial do Mac OS X há 5 anos. Atender a essas pendências seria motivo importante para fazer o update, mas a Abobe tem gasto os últimos dois anos em escamoteá-las. As suas justificativas para a defasagem tecnológica (e certos bugs não resolvidos) baseiam-se sumariamente em jogar a culpa na Apple. John Nack pessoalmente faz isso, em periódicas demonstrações veladas de má vontade com a empresa parceira. Inaceitável atitude, vindo de uma empresa com tal porte e recursos de desenvolvimento.
Há outras questões mal resolvidas, como a recusa aberta da Adobe em atualizar o plug-in Camera Raw para o Photoshop CS3 — outra faceta da obsolescência forçada — e o bug envolvendo o recurso Spaces do Mac OS X no CS4, que a Adobe insiste ser totalmente por culpa da Apple, mesmo havendo uma multidão de outros aplicativos que funcionam corretamente com o Spaces.
Não custa lembrar neste momento que a Adobe só veio a se tornar uma potência no mundo do software por causa da Apple e do Macintosh em dois lançamentos fundamentais: a linguagem PostScript e o Photoshop. Esses fatos não criam nenhum vínculo de dívida, é claro, mas explicam porque a plataforma com apenas 9% do mercado de computadores continua fornecendo metade dos clientes da Adobe, o que deveria ser suficiente para ela baixar a bola nos momentos de indisposição com a turma de Steve Jobs.
Enfim, Adobe, entenda que está tudo errado e vocês têm que reencontrar o seu rumo. Nem que seja preciso botar cabeças graúdas no facão. Nós, usuários individuais, esperaremos pelas mudanças à nossa maneira: não atualizando nossos programas.
Atualização - 27 de agostoObviamente, o post de John Nack repercutiu extremamente mal na Web contra a sua empresa. Apenas algumas horas depois, ele voltou a escrever no blog, num esforço de controle de danos.
Diz agora que não é bem assim. Que técnicos da Adobe testaram, sim, o CS3 no Snow Leopard (aparentemente, ele mesmo não sabia disso, o que levanta outros tipos de dúvidas); que esses técnicos alertaram a Apple sobre bugs no Mac OS X que interferiam no software da Adobe (uma argumentação constante dele, essa de que os piores bugs pertencem à outra empresa); e que, tirando alguns problemas cosméticos, dá para usar a suíte CS3 sem estressar. E reafirma que a Adobe agora só tem olhos para seu desenvolvimento atual e futuro (em que pese o CS4 ter bugs bem conhecidos que permanecem sem solução há mais de um ano).
Nos próximos dias, de posse de uma cópia final do Snow Leopard instalada num Mac previamente carregado com o CS3 Master Collection, poderemos dar um veredito distanciado do diz-que-diz de executivos de marketing.
Nossa atitude cética e crítica é necessária em nome do interesse dos usuários e visando o progresso do mercado e dos produtos. Não há progresso quando a empresa que os cria está mais empenhada em servir a si mesma do que aos seus clientes.
Em outubro temos o lançamento do Windows 7. Estaremos de olho na atitude da Adobe em relação ao sistema da Microsoft.