Frustrado como Engenheiro de Sistemas, Daniel Xavier decidiu recomeçar sua carreira como assistente de fotógrafo e abraçar de vez sua paixão pela arte.
Conte-nos um pouco de sua história.Eu sou pernambucano, mas moro em São Paulo há quase 20 anos. Fui morar em Campinas para estudar, e lá fiquei por 3 anos. Depois, vim para São Paulo trabalhar em uma empresa que desenvolvia softwares para o Ministério da Aeronáutica. Após algum tempo, percebi que meu caminho estava equivocado. Eu não gostava de ficar sentado 8 horas por dia em um escritório, falando com um monte de chefes burocratas e participando de reuniões intermináveis. Sempre gostei muito de fotografia, de ver e tirar fotos, mas nada profissional. Tinha muito medo de trocar o certo o salário de uma grande corporação por um caminho totalmente independente e incerto. Sempre gostei de mexer em computador. Comecei a estudar fotografia, mesmo sem saber direito o que queria fazer. Fiz vários cursos básicos e participei de workshops, palestras etc. Já estava com 28 anos quando resolvi jogar tudo para cima. Acho que me inspirei em pessoas que descobriram “tarde” o que desejavam fazer da vida, como Sebastião Salgado, que se descobriu fotógrafo aos 32 anos.
Como nasceu seu interesse pela arte e pelo design?Acho que sempre fui interessado, mas isso sempre ficou adormecido em mim. Quando ia às livrarias, começava pela sessão de livros técnicos e terminava na sessão de livros de fotografia e arte. Nunca fui um conhecedor, e sim um admirador. Depois de um tempo, comecei a conviver com muitos fotógrafos e designers e percebi que gostava de acompanhar os trabalhos que eles desenvolviam. Nesta época, conheci um designer argentino que se tornou muito meu amigo. Acho que ele foi uma grande inspiração para mim.
Você é formado?Na verdade, sou formado em outra área. Fiz graduação em Ciência da Computação e pósgraduação em Engenharia de Sistemas na UNICAMP. Algum tempo depois que terminei a universidade foi que me interessei pela área das artes gráficas.
Você acha a formação superior desnecessária?Não. Mas gostaria de falar por mim, do meu caso. Acho necessária sim, mas não fundamental. Na universidade temos contato com muita coisa que vai formando e construindo uma personalidade, um jeito de pensar, além das muitas influências que levaremos para a vida profissional. Eu trouxe muita, muita coisa mesmo, do meu curso de Ciência da Computação. Acho que foi uma base fundamental. Já vi muita gente desta minha área que não tem noções básicas de matemática e lógica, gente que possui pouca noção de perspectiva. Lógico que, por ter estudado muito Ciência da Computação, eu acabo tendo mais facilidade que outras pessoas em tarefas que servem de suporte ao meu trabalho.
Você acha importante fazer cursos de design/ilustração?Sim, acho sim. Não só estes, mas principalmente cursos de fotografia. Antes de me interessar por tratamento de imagem, eu fiz alguns cursos de fotografia, revelação, ampliação, workshops, assistências com fotógrafos, até chegar aonde queria. Acho interessante também fazer cursos de desenho e de pintura.
Como você define seu estilo?
Profissionalmente, tenho que me adaptar ao olhar do cliente. Muitas vezes faço coisas com que não concordo, mas no fundo o trabalho não é para mim, mas para o cliente. É a ele que tenho que satisfazer.
Quais artistas você mais admira?Gostaria de citar alguns fotógrafos: Sebastião Salgado, Erwin Olaf, David Lachapelle, Phil Borges, Ansell Adams, entre outros.
Onde você acha inspiração?Em livros, revistas e sites de fotografia.
Você trabalha 100% digital ou desenha no papel antes?
Totalmente digital. Às vezes escaneio algum esboço para trabalhar em cima também.
Como você entrou para o mundo da fotografia/ilustração/publicidade?Acho que nessa hora fui abençoado por Deus. Eu estava fazendo assistência em fotografia para alguns fotógrafos aqui em São Paulo, meio itinerante. Às vezes um, às vezes outro. Foi aí que conheci um fotógrafo que, na época, estava começando a mexer com tratamento de imagem. Até então, eu não tinha visto nada (isso foi em 1995), e a partir daí disse para mim mesmo “É isso que eu quero. Vou juntar fotografia com computador”. Tive que ralar muito, muito mesmo. Fiquei lá como voluntário por um ano inteirinho. Só fui começar a fazer meus primeiros trabalhos (para o próprio fotógrafo) quase um ano depois de ficar acompanhando. Nessa hora, eu disse “Acho que vai dar certo”. Imagine... eu morava aqui em São Paulo sozinho, dividia um apartamento de quarto e sala com mais três amigos, e minha família estava toda em Pernambuco. Foi uma grande alegria descobrir outra profissão já aos 28 anos.
Você já ganhou prêmios? Acha-os importantes?Na verdade, eu nunca inscrevi qualquer trabalho meu em concursos, mas já houve trabalhos em que fiz o tratamento que foram premiados em festivais, dentro e fora do Brasil. Ganhar um prêmio valoriza o trabalho e com certeza é muito legal. Mas, normalmente, os trabalhos são inscritos pelas agências. Vai o crédito da agência, da criação e do fotógrafo apenas. A pessoa que fez a finalização do trabalho geralmente nem aparece. Muita gente me diz, depois que acessa meu site, que não sabia que era eu quem tinha feito este ou aquele trabalho. Mas acho tudo isso muita vaidade e tento não me influenciar por estes créditos.
Qual o maior desafio para você na hora da criação?Chegar a um resultado que eu ache muito bom, mesmo que eu não ache o trabalho bonito.
Em que você está trabalhando atualmente?
Vários trabalhos. No momento estou fazendo trabalhos para o Ministério da Saúde, Hyundai, Nissan, Peugeot, Procter & Gamble, Fame, Perdigão, Intermarine e Unimed. Alguns estão no cliente, esperando aprovação, outros em produção e outros aprovados, mas ainda não voltaram para mim.
Como é trabalhar para você mesmo?
O meu chefe é o cliente, trabalho no ritmo dele. Sempre tento negociar prazos mais humanos e, com toda certeza, trabalho muito mais do que quando era funcionário de empresas. Eu tenho que cumprir prazos, meus horários são os mais desregulados que se possa imaginar. Depois de 13 anos fazendo isso, já nem me lembro mais como era minha vida antes.
Como nasceu sua empresa?Nasceu naturalmente. Eu já fazia muitos trabalhos dentro dos estúdios fotográficos, mas com o tempo a gente vai sentindo a necessidade de formalizar mais as coisas: emitir nota, ter um espaço, emitir duplicatas, comprar
equipamentos. Trabalhei muito tempo sozinho, na minha casa ou nos estúdios dos fotógrafos, depois é que resolvi mudar. Foi uma coisa muito tranqüila e natural.
Como foi o crescimento de sua empresa?Para ser sincero, logisticamente sou pequeno ainda, somos eu e mais três assistentes. Também nunca quis ser uma “Casa do Vaticano” ou uma empresa com muitos funcionários. Isso nunca foi um objetivo. Atualmente, com a estrutura que tenho, luto muito para livrar meus finais de semana. No meu caso, quando um cliente me chama para fazer um trabalho, ele imagina que sou eu quem vai tocar. Claro que divido tudo com as pessoas que trabalham comigo. Fico imaginando como será se a empresa crescer muito! Aí é que eu não vejo mais minha filhinha de dois anos. Gosto de levá-la ao parque, ao cinema, ao teatro. Se for trabalhar dia e noite (como vejo muitos amigos meus fazendo) minha vida vai virar um inferno! Confesso que trabalho demais, meu ritmo é bem pesado. Trabalho, fácil, 15 horas por dia. Se eu não colocar um limite, ninguém vai colocá-lo por mim. Houve uma época em que os clientes estavam me telefonando no domingo, às dez da noite e falando como se fosse um dia normal. É uma febre, um câncer. Todos que trabalham nessa área sabem do que estou falando.
A empresa mudou de foco?Acho que o mercado mudou de foco. A empresa trabalha no espírito “on demand”. Em 1995, quando comecei, eu via ainda uma poesia, um grande charme nesse nosso trabalho. Quase tudo era resolvido ali, no clique, na foto. Atualmente, vejo que a guerra de preços dominou tudo. Outro dia eu estava mexendo numa foto de banco de imagens que um cliente me mandou para adaptá-la para as necessidades que ele desejava. Era uma foto de uma modelo, e eles queriam trocar a cor da camisa, mudar o nariz, a boca, o cabelo, o fundo, a cor da pele. Enfim, transformar tudo. Perguntei a ele se não ficaria melhor produzir outra foto, fazer um casting, uma produção de figurino etc. Ele me respondeu que ficaria dez vezes mais caro e preferiram comprar de bancos de imagem, e eu fui obrigado a me calar. Acho que as coisas mudaram muito mesmo. Isso sem falar em anúncios que são produzidos hoje e que não correspondem a uma realidade. Tudo é meio virtual: os cenários, as proporções entre os elementos, as cores, os contrastes. Não tem jeito de se produzir isso diretamente no clique, fica realmente impossível.
Quais seus principais clientes?
Trabalho para muitos fotógrafos, agências e alguns clientes diretos. Não gostaria de citar nomes diretamente, basta olhar no meu site (www.danielxavier.com.br). Mas já fi z trabalhos para mais de 40 fotógrafos e mais de 100 clientes diferentes.
Como funciona sua captação de clientes?
De duas formas: por indicação dos fotógrafos e diretores de arte com quem já trabalhei (boca a boca mesmo) e também pelo nosso site. Tenho o maior orgulho em dizer que todas as pessoas com quem já trabalhei acabaram chamando para um segundo trabalho. Nunca atendi a mesma agência/fotógrafo/ cliente com apenas um trabalho.
Qual trabalho seu você considera o melhor até hoje?Acho que o trabalho com os veículos, porque nós realmente mexemos muito. Aliás, mexe-se demais! Os cenários e as fotos que recebo, geralmente, passam por transformações com que até mesmo eu me surpreendo no final.
Quais suas ambições daqui para a frente?Agregar mais coisas ao trabalho final, como 3D por exemplo. No lado pessoal, ter uma vida normal: trabalhar, dormir, passear, viajar, ler, tirar férias. Trabalhar de uma forma mais alinhada a uma boa qualidade de vida.
Qual o recurso que você mais gosta no Photoshop?
Pode ser estranho dizer isso, é um recurso bem simples... mas que gosto muito: trabalhar com máscaras. Acho mágico fazer aparecer e desaparecer informações das camadas.
O que mais o irrita no trabalho com o Photoshop?
Não poder utilizar a ferramenta “warp” em camadas “linkadas”, como em um grupo por exemplo. Acabo tendo de fazer artifícios para aplicar a mesma distorção em muitas camadas ao mesmo tempo. Também me irrito um pouco quando aquela ampulheta (bolinha colorida) fica girando depois de algum comando malsucedido... mas aí espero um pouco e tudo passa. Mas, no geral, não me irrito muito.
O que ainda é muito difícil fazer com o Photoshop?Mexer com perspectiva. A gente consegue distorcer coisas, mas com certas limitações, devido às características do programa. Quando é necessário mexer na perspectiva de um objeto mais radicalmente, temos que partir para outras ferramentas.
Qual sua dica para quem deseja dominar o Photoshop?
Nossa! (risos). Será que tem alguém que domina? Talvez os desenvolvedores e os testadores da Adobe. Estou constantemente descobrindo novos recursos, novos atalhos, caminhos alternativos para se chegar ao resultado desejado. Quando quero fazer alguma coisa e não sei por onde começar, fico tentando, tentando, tentando, até chegar ao melhor resultado que conseguir no tempo que tenho. Também não dá mais para ficar dias mexendo em uma imagem, aprendi que isso não tem fim. Dificilmente tenho um trabalho que não seja para entregar no dia seguinte.
O que você diria para quem deseja seguir seus passos?
Que precisa ralar muito. Virar muitas noites, fazer, refazer, fazer novamente, buscar a perfeição, olhar referências. Também é importante estudar fotografia (principalmente), desenho, pintura e artes gráficas em geral. E que não pense muito em dinheiro. Estou cansado de ver gente que está começando só pensando em dinheiro, e não em aprender a fazer bem-feito. Acho que a remuneração é a conseqüência de uma história. E não basta só fazer direito, tem que saber cumprir prazos e conquistar a confiança dos clientes.