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Ralph Lauren x Boing Boing: Photoshop e censura

Postado por Mario Amaya em 09/10/2009 às 05h 31min

Blogueiros declaram guerra à grife de moda, cuja falta de tato transformou o "desastre de Photoshop" em "catástrofe de relações públicas". Blogueiros do Brasil, aprendam como fazer quando tentarem calá-los. Por Mario Amaya




Tudo começou quando o site Photoshop Disasters publicou a foto de um anúncio luminoso de rua da Ralph Lauren no Japão, com uma foto da modelo Filippa Hamilton. Um trabalho de Photoshop absurdo e tosco, no qual a cabeça não está na mesma escala do corpo, e a magreza é forçada a ponto de ser ofensiva. Esse tipo de distorção extrema tem sido alvo frequente de críticas do público, e o resultado em questão não deixa dúvida: não bastava a modelo já ser magra, os perpetradores da peça ainda julgaram necessário aplicar uma mão pesada no Photoshop.

A controvérsia poderia ter parado aí. A revista Veja, por exemplo, já foi destaque no Photoshop Disasters e não há registro de que ela tenha se importado com a menção nada honrosa. Mas o post sobre o anúncio da Ralph Lauren foi replicado no Boing Boing, um blog coletivo norte-americano que é referência para milhões de geeks do mundo todo. Os comentários no post execraram a imagem unanimemente.

Então, a grife enviou uma notificação extrajudicial mal-educada, com base na controversa lei de copyright DMCA, alegando quebra do direito de uso de imagem e ordenando o Photoshop Disasters e o Boing Boing a censurarem seus posts.

No Photoshop Disasters a imagem caiu, por força do seu provedor - o BlogSpot, que pertence ao Google. (Mas segue visível pelo cache do Google.) O Boing Boing, porém, avaliou junto a seu provedor (que fica no Canadá e não nos EUA) que a reprodução da foto não infinge nenhum direito de uso. Cory Doctorow, editor do site, publicou uma refutação irada:

À Ralph Lauren, GreenbergTraurig e PRL Holdings, Inc.: processem-nos e vão se ferrar. A lei de copyright não lhes dá o direito de ameaçar seus críticos por apontarem problemas em seus produtos. Vocês deviam saber disso. E toda vez que nos ameaçarem com processos por causa de coisas assim, nós iremos:

a) Reproduzir a crítica original, certificando-nos de que todos os nossos leitores tenham uma boa oportunidade de lê-la;

b)
Reproduzir a sua ameaça jurídica espúria, juntamente com uma copiosa ridicularização dela, a fim de obter um ranking elevado nos mecanismos de busca, a fim de que outras pessoas ameaçadas por vocês a encontrem e ganhem confiança;

c) Oferecer sopa nutritiva e sanduíches às modelos.


A polêmica continuou no Boing Boing, com uma terceira postagem sobre o assunto. E finalmente acabou aparecendo em outros sites de peso: NY Daily News, Slashdot, Extra, Jezebel (com outras fotos da mesma modelo para comparar), Yahoo! Shine (mencionando outros casos de controvérsias com fotos de modelos), The Register  e ABC News (a reportagem mais caprichada, cheia de exemplos de casos parecidos).

Será que os advogados da grife vão tentar calar todos esses sites, um a um?


Enquanto isso, no Brasil...


Um caso similar aconteceu há apenas alguns dias no Brasil. Embora não envolva uma imagem “fotoxopada”, ela suscita comparações pertinentes em suas semelhanças e diferenças para o caso norte-americano.

O blog Resenha em Seis, um coletivo de jornalistas, postou uma crítica de um bar paulistano, em linguagem extremamente abrasiva. Logo em seguida, duas pessoas - uma anônima e outra que se identificava como dono do bar - ameaçaram processar o blog nos comentários do site, que não são moderados.

Isso causou furor entre os visitantes, que começaram a espalhar o link do post como um exemplo de falha de relações públicas. Afinal, alguém dizer na Internet que acha um bar ruim não deveria ser considerado crime, e a reação mais natural dos proprietários do bar deveria ser de apagar a má impressão oferecendo melhorias no atendimento.

Mas, em vez disso, o advogado do bar enviou uma carta extrajudicial exigindo a remoção do post. Isso amplificou o furor do público, gerando uma verdadeira campanha coletiva contra o bar no Twitter. O post foi copiado e republicado por vários outros blogs, numa atitude de desafio direto - e não consta que nenhum deles tenha recebido a cartinha.

Por fim, o blog entregou-se e removeu o post, sem esboçar resistência legal, para “evitar dor de cabeça”. Essa capitulação repentina causou uma terceira onda de revolta dos internautas, desta vez contra o site.

O caso já entrou para a história da Internet brasileira como um dos pontos baixos das liberdades civis na rede, juntamente com outras controvérsias infames, como o caso Cicarelli x YouTube em março de 2007.




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